26 de setembro de 2005

O Príncipe e o Sapo

Atravessou com calma a porta tipo remoinho que dava acesso ao terminal A do aeroporto. Ainda tinha algum tempo antes da partida do seu voo. O terminal estava repleto de pessoas. Lá fora, uma chuva miudinha molhada os mais incautos, que tendo despertado com sol radioso tinham desprezado a sempre útil companhia do chapéu-de-chuva. Naquela cidade o tempo era assim, caprichoso. A proximidade do mar fazia com que o céu mudasse rapidamente de tom e várias vezes ao dia.

Espraiou o olhar pelo terminal procurando um lugar para sentar e descansar. A noite mal dormida e o trolley que o perseguia desde muito cedo começavam a fazer-se sentir. Junto às escadas de acesso ao controlo policial vislumbrou várias filas de cadeiras metálicas com forro negro dispostas paralelamente umas às outras desafiando-se aos pares.

À distância conseguiu detectar apenas meia dúzia de lugares livres. Mentalmente foi recorrendo as diversas possibilidades, procurando a mais agradável. Rejeitou a primeira, pois na cadeira ao lado dormia um jovem de perna esticada a ocupar parcialmente o lugar que pretendia utilizar. Rejeitou a segunda, a terceira e as seguintes até que, numa fila mais afastada detectou duas cadeiras livres. A esquerda estava uma jovem de cabelo louro, jeans e uma camisola azul. Nos pés uns simples ténis brancos de uma marca conhecida. Sobre as pernas um computador portátil aberto. À direita um casal de jovens apaixonados trocava confidência e afagos.

Sim aquele parecia ser um bom local.

Aproximou-se e escolheu deliberadamente sentar-se na cadeira mais à esquerda, ordenando ao trolley que se sentasse e aguardasse. Olhou para a jovem à sua esquerda, que instintivamente lhe retribuiu o olhar e o sorriso com que ele a brindou. Baixou os olhos para o computador, onde ela, afincadamente escrevia. Estavam numa zona wireless e ela parecia ocupar a sua espera num chat. Esteve durante minutos com os olhos presos no ecrã do computador até que ela lhe disse:

- Desculpe, mas não lhe parece falta de educação estar a ler as conversas dos outros? Não se importa de parar de olhar para o meu computador!

- Perdoe-me, mas na realidade nem estava a ler. Estou tão cansado que o meu pensamento estava a voar sobre um praia de areia douradas, resguardada por dunas desertas, vigiada por um Farol secular…

- Na minha profissão já ouvi más desculpas, mas essa deve ser das piores. – Disse ela sorrindo.

- Acredito que sim, mas nenhuma foi certamente tão sincera como esta. Se desejar posso tentar encontrar outro lugar para me sentar. – Disse ele

- Não se incomode, pois já estou quase de partida.

- Pedro Sobral. – Disse ele estendendo-lhe a mão. –

Ela acedeu ao cumprimento.

- Sara Castelo.

- Agora que já temos mais intimidade, deixe que lhe confesse que apesar de efectivamente não estar a ler o que escrevia no computador, não pude deixar de reparar que estava a utilizar um chat e perguntei-me o que levaria uma mulher jovem e bela, como você, a estar num aeroporto a conversar num chat.

- Não espera sinceramente que lhe responda a isso, pois não?

- Sinceramente? Porque não?

Ela soltou uma gargalhada sonora que levou algum tempo a extinguir-se. Já parcialmente recuperada do ataque de riso respondeu.

- Ora, simplesmente porque não o conheço e não tem nada a ver com isso.

- Pois olhe que eu penso exactamente o contrário. Um estranho, conhecido num aeroporto, pode ser a pessoa ideal para nos abrirmos e contar aquilo que não temos coragem de contar àqueles com quem diariamente convivemos. Já pensou nisso?

- Não, nunca tinha pensado e também não me parece que vá pensar agora. Já agora, diga-me…

- Sim… - expectante pela questão?

- Por acaso não é um candidato a padre que em viagem entre seminários se entretém a tentar confessar, ou será melhor dizer, engatar jovens em terminais de aeroporto? - Questionou ela num tom provocador e irónico.

- Claro que não! Disse ele num tom peremptório, fazendo uma expressão de ofendido - Mas… a Sara tem necessidade de se confessar?

- Deus me livre! Não “Sr. padre”! Fujo do pecado como o diabo da cruz! – Risos.

- Esclareça-me apenas uma coisa. Com quem conversava aí nesse computador?

- Sinceramente? Com ninguém.

- Então?

- Tenho um amigo com quem costumo conversar e esperava encontra-lo cá a esta hora.

- Era importante falar com ele? – Questionou ele.

- Importante, importante... sim e que não. Não tinha um assunto importante para falar com ele, o que era mesmo importante era simplesmente falar.

- Sinto que esse amigo é especial, talvez um namorado?

Risos

- Até podia ser, se nos conhecêssemos pessoalmente!

- Está atentar-me dizer que não o conhece, mas que mesmo assim sente falta de falar com ele?

- Creio que podemos dizer que sim. Falo com ele quase todos os dias e quando não consigo falar fico num estado de ansiedade que não consigo explicar. Mas que estou eu para aqui a contar-lhe? Afinal parece que sempre está a tentar confessar-me.

- E aparentemente com sucesso. - Disse Pedro. - Não ligue ao que acabei de dizer. Não sei explicar, mas desde que a vi aí sentada com o computador aberto, creio que pressenti a sua ansiedade. Como pode ver não me enganei. Acho que comunicamos bem, os dois.

- Até pode ser, mas é algo que não estou preparada para admitir.

- E sobre o seu amigo, quer falar-me mais sobre ele?

Sara fitou Pedro nos olhos e ficou pensativa. Por fim disse:

- E porque não! Afinal você é simplesmente um estranho que não voltarei a ver!

- Já se conhecem há muito tempo?

- Uns meses. Tudo começou com uma brincadeira de amigas. Entrámos num canal e começámos a meter conversa com alguns utilizadores. A sua não era a mais brilhante ou hilariante, mas algo me levou no dia seguinte a voltar ao canal para falar como ele.

- E ele estava lá?

- Sim, esse foi o princípio do meu problema. Estava, e disse que estava à minha espera. Depois conversa leva a conversa, e aqui estou eu, meses depois agarrada a um computador, num terminal de aeroporto, na esperança de falar com ele antes de partir.

- Mas tinham combinado algo?

- Não, nunca discutimos assuntos da nossa vida pessoal, não sei o que faz, como vive, com quem vive, onde trabalha, nada. Concordámos que seria melhor assim. Seria apenas uma conversa anónima na rede.

- Por isso ele tanto pode aparecer, como não, certo?

- Sim, mas quando não aparece fico apreensiva, não sei o que pensar. Penso que talvez esteja farto das nossas conversas.

- Mas algo deve saber dele, algo pessoal, algo que lhe permita identificá-lo se o vir?

- Não, nada!

- Desculpe que lhe diga Sara, mas essa relação parece-me algo estranha e familiar ao mesmo tempo. Deve ser um fruto dos novos tempos e das novas tecnologias. O mundo que nos entra por fio e nós cada vez mais isolados. Nunca pensaram em marcar um encontro?

- Já pensei nisso, mas nunca tive a coragem para, sequer, o sugerir. Imagine que depois o príncipe afinal me saía um sapo. Não sei como reagiria…

- Pois há sempre esse perigo, principalmente quando a relação está estrutura sobre um fio condutor que vocês percorrem como equilibristas sobre uma pista de circo sem rede de segurança.

- Olhe Pedro, gostei dessa imagem! Creio que é isso mesmo somos equilibristas na corda e é precisamente o medo de cair que nos mantém agarrados à corda.

- E a Sara também nunca lhe revelou nada pessoal?

- Não que me lembre. Espere… lembro que uma vez lhe disse em brincadeira que tinha um pequeno sinal numa parte do meu corpo, mas que ele nunca veria.

- E disse-lhe onde era?

- Depois de muita conversa, do tipo desta sua, de confessor, ele conseguiu arrancar-me a informação.

Naquele instante pelo sistema áudio do aeroporto uma voz feminina anuncia a última chamada para o check-in do voo 855.

- Este é o meu voo - disse Sara, levantando-se.

Pedro, seguindo-lhe o movimento, disse sorrindo:

- Coincidência, também é o meu voo.

Sara, abrindo muito os olhos, e ainda incrédula murmurou:

- Não posso acreditar!

Então Pedro olhando com ternura para Sara disse-lhe,

- Sara, gostaria de pedir um lugar a seu lado no check-in, mais ainda se a Sara tiver um pequeno sinal em forma de L na parte exterior do seu peito esquerdo.

Sara abriu muito os olhos para os fechar em seguida. Pedro pressentindo ela se desequilibrava, lançou os braços e susteve-a pela cintura. Sara esteve apenas uns instantes com os olhos fechados. Quando os abriu viu-se suspensa nos braços de Pedro que muito delicadamente lhe perguntou:

- Sei que não sou um príncipe, mas espero que não me aches um sapo.

Sara, tentou recobrar a posição vertical indo procurar os lábios de Pedro que beijou apaixonadamente.

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22 de setembro de 2005

Farol da Vida (Capítulo 9)

Ainda com a tristeza a inundar-lhe o olhar Pedro rodou ligeiramente a cadeira e fitou o enorme quadro na parede do gabinete procurando encontrar nele a luz, uma luz forte e segura que o conduzisse por entre as agitadas ondas que o mar da vida lhe tinha reservado para esse dia e finalmente o conduzisse a um porto de abrigo.

Com o equipamento meticulosamente dobrado dentro do seu Ellipse Sac à Dos da marca Louis Vuitton, sobre o seu ombro direito, Manuela entrou no elevador e premiu a tecla do piso zero. A viagem foi curta e mal a porta abriu foi rodeada por um turbilhão de notas musicais em festa que vogavam freneticamente em todas as direcções, incitando ao movimento e à folia.

Cumprimentou o deus grego que estava na recepção com um sorriso forçado, ao qual ele respondeu com um olhar guloso que a radiografou do pescoço aos joelhos. Indiferente seguiu para os balneários. Sentia uma necessidade extrema de se torturar fisicamente, pois talvez dessa forma conseguisse esconder-se da dor que lhe espancava, impiedosa, a alma. Que manhã aquela, primeiro a indiferença de Pedro, depois aquela reunião, bolas! Que mais lhe poderia ainda acontecer naquele dia, pensou.

Já no balneário, sentou-se e sensualmente começou a correr as meias de nylon em direcção à ponta do pé que permanecia estirado com o calcanhar levantado. O seu corpo estava ali, mas o seu pensamento permanecia ao lado de Pedro no escritório. Lançou um olhar furtivo ao telemóvel. Talvez pudesse telefonar para saber como estava a decorrer o trabalho… Pensou melhor e desistiu da ideia. Do saco Louis Vuitton extraiu o equipamento que vestiu calmamente, intervalando cada movimento com um pensamento doloroso.

Por fim, já vestida, colocou a roupa cuidadosamente no armário. Dirigia-se para a saída quando parou em frente do gigantesco espelho que repousava sobre a fila de lavatórios. Olhou profundamente o espelho e teve vontade de lhe perguntar: Espelho, espelho meu, à mulher mais bela do que eu?

Por momento ficou a admirar como o body azul-marinho, se colava à sua pele moldando e salientando cada curva do seu busto, mais abaixo, nem uma única prega ou ruga. Rodou lateralmente um pouco, espreitando o perfil e apreciou como os calções de Lycra lhe torneavam as ancas.

Barriga? Nem um bocadinho, tinha um corpo perfeito, só Pedro lhe resistia. Olhando novamente o espelho de frente, levantou as mãos até junto dos ombros e lentamente começou a acariciar o seu corpo, deixando escorrer as mãos até às ancas, enquanto murmurava:

- Ai Pedro, como consegues resistir, como?

Por fim saiu deixando para a mola a tarefa rotineira de fechar a porta. Seguia por um corredor envidraçado com a intenção de ir assistir a uma aula movimentada, qualquer uma lhe servia desde que a fizesse transpirar. Necessitava expulsar de dentro de si pelos poros do corpo as toxinas que lhe envenenavam a alma, como se tal fosse possível.

Nesse momento reparou que num tapete de jogging estava Joana Sousa. Joana era directora criativa numa agência publicitária. Tinha-a conhecido ali mesmo no ginásio e tornaram-se boas amigas. Manuela simpatizava com ela, não se podia dizer que eram “best friends”, mas já compartiam algumas intimidades.

Manuela olhava para Joana em cima do tapete quando teve uma recaída. Voltaram os pensamentos sobre a sua figura que agora comparava com a de Joana. Joana era bonita, com cabelos naturalmente claros. Um olhar intensamente claro e magnético contrastava com a pele espontaneamente dourada cobrindo um corpo deleitoso. Contudo, nem sendo quase uma década mais nova do que Manuela, Joana não conseguia provocar nos homens o espanto e a cobiça que Manuela originava. Era mais cheiinha, toda ela era curvas, bem torneadas num corpo firme. Até um cego facilmente via que Joana não saíra ao pai, toda ela era mulher, mas para Manuela o seu corpo mais esguio e de curvas menos acentuadas proporcionava uma estrada de condução mais suave e isso agradava-lhe. Aquela comparação com Joana refrescava a sua confiança e engrandecia o seu ego. Talvez fora esse o motivo pelo qual tinha, desde o início, gostado de Joana, ela não era uma concorrente à sua altura. Ficava sempre a perder na comparação, o que lhe agradava.

Pensou ir ter com ela, talvez caminhar um pouco a seu lado, afinal sempre poderiam conversar, e quem sabe, talvez assim a dor resolvesse acompanhar as palavras e abandonar de vez a sua alma sem ter de torturar o corpo mais do que o necessário.

Abriu a porta da sala e cumprimentou Joana:

- Olá Joana, bom dia!

- Olá Manuela, tu por aqui a esta hora? Não me disseste que vinhas?

- Deixa-me lá, não sabes o dia que levo, e ainda agora começou!

- Estou a ver… – disse Joana - Problemas no escritório ou em casa?

- Em casa? Antes fosse… - resmungou Manuela – É mesmo no escritório.

- Já estou a adivinhar. Mais um fracasso na tua abordagem àquele arquitecto… como se chama ele?

- O Pedro! – Disse Manuela num tom combalido e resignado.

- Pois o Pedro. Mas tu não aprendes? Não sabes que quanto mais corda lhe dás mais ele te enforca?

– Aprender, dizes tu! Isso é fácil de dizer, o difícil Joana, é trabalhar todos os dias com um homem daqueles a teu lado, um homem que exala charme em cada centímetro de pele, em cada olhar, em cada lufada de ar que expele, em cada palavra que pronuncia , em…

- Chega, chega! Já percebi. Mas não deve ser bem assim como descreves, claro que como dizia o poeta “O amor é cego…”

- Algum dia terás a oportunidade de o conhecer e depois veremos se mudas de opinião.

Aquele foi um desejo que saiu apenas da boca de Manuela, pois apesar da sua superioridade face a Joana, tantas vezes por ela conferida, preferia mesmo assim que ela nunca conhecesse Pedro, Pedro era seu, havia se ser seu e somente seu.

Finalmente Manuela subiu para o tapete colocado à direita de Joana e começou a andar.

- Queres ir comer algo a uma esplanada junto ao mar depois? – Convidou Joana

- Quero. Hoje não me apetece fazer mais nada. Nem vou mais por os pés no escritório. O Pedro que se arranje, que se tem idade para me rejeitar, também tem idade para se desembaraçar sozinho no escritório.

- Boa! Vai ser um dia de arromba. Verás que ao fim do dia te nasceu outra alma! podíamos até ir comer ao restaurante do meu Ex. – Rematou Joana.

- Não sei como consegues ir comer ao seu restaurante…- Salientou Manuela.

- Não vejo qual é o problema. É verdade que as coisas não correram bem entre nós…Também é verdade que a separação não foi um processo propriamente pacífico e sem dor, mas agora está tudo sanado e o importante é olhar para a frente, cada um no seu caminho. Sem atropelos nem ressentimentos, bem quase sem…- Disse Joana com um risinho.

Manuela abanou a cabeça e anuiu:

- Bem se tu não te importas, quem sou eu para reclamar…

Nesse momento entrou na sala o Personal Trainer de Manuela. Jovem, alto, musculado, achava-se o máximo e além disso como estava na moda ter um, fazia sucesso tremendo, principalmente entre as trintonas e quarentonas que adoravam a sua ascendência de polvo na carta astral do Zodíaco, pois passava o tempo todo com os “tentáculos” colados nelas.

- Manuela que fazes aqui a correr sozinha? – Disse ele enquanto assentava um dos tentáculos nas costas de Manuela, fazendo compassados e suaves movimentos ascendentes e descendentes roçando o limite das ancas.

- Manuela, querida, sabe que eu sou responsável pela sua boa forma física e tenho de velar pessoalmente pelo seu programa de treino.

Mas o polvo estava com azar naquele dia, pois Manuela sentia-se com instintos de pescadora e rispidamente, com uma ponta de ironia deu um puxão na cana e respondeu-lhe:

- Hoje quero uma tortura pessoal. Por isso o querido, vá tomar uns batidos multi-vitamínicos ou de proteínas, que eu hoje não estou com paciência para os seus programas de treino. Isto é entre mim e o meu corpo.

Visivelmente transtornado, com o ego como o rabo dos cães, retirou imediatamente o tentáculo das costas de Manuela dizendo apenas:

- Pronto querida, não é necessário ser tão agressiva, eu só queria ajudar, afinal é para isso que me paga!

Enquanto o polvo se afastava, Joana tentava a todo o custo manter a pose e conter o riso.

- Ai Manuela, que tu hoje estás…

- Estou, estou muito pior do que possas imaginar, já não me bastava não conseguir ter o afago que anseio, ainda tenho de abdicar para ele de um dos meus projectos.

Nesse mesmo momento, mas bastante longe dali, em São José, Joaquim acompanhava Manuela na dor, diferente, mas igualmente cruel. Prostrado no varandim, extenuado pela luta interna que travou com o conteúdo daquela carta, Joaquim compreendeu que chegara a hora de partir e deixar o seu farol, aquele farol que era como um membro da sua família, uma extensão do seu corpo.

A mensagem era explícita: teria de abandonar definitivamente o farol. Levantou os olhos do chão do varandim e espraiou o olhar pelo horizonte, focando aquele ponto inatingível onde o azul do céu se funde com o azul do mar. Esticou o braço procurando, nesse ponto, separar o mar do céu e viu que era impossível.

Uma impossibilidade tão imensamente grande, quanto separa-lo, a ele, do seu farol!

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16 de setembro de 2005

Gostos e... Desgostos

Gostos e… desgostos

Acabei agora mesmo de ler o comentário da minha estimada amiga e fiel companheira de viagens bloguistas (Riacho) sobre o “Farol da Vida”. Não podia vir mais a propósito, pois recebi ontem mesmo um mail de uma pessoa que se identificou como leitor(a?) assíduo(a) do farol, mas que dizia estar algo desiludido(a) com os últimos post’s.

Dizia-me que são muito extensos, que deveria escrever textos mais curtos e se possível limitar cada história a um único post. Diz-me que é difícil acompanhar a história e também não é favorável à captação de novos leitores. Para rematar declarou ainda que, pessoalmente, lhe agradam os textos mas que esta última história é cansativa. Muitos capítulos e muito longos.

Digo-vos com sinceridade que ainda não lhe respondi. Na verdade não sei que lhe responder. Pensei em dizer-lhe que escrevo como gosto de escrever e que não submeto a minha pena, perdão, teclado à tirania da imposição de modelos pré estabelecidos, do tipo incluir certas e determinadas palavras, ou limitar os post’s a xis caracteres.

Depois pensei se esta não seria uma posição autista, se não deveria ouvir os conselhos que os meus leitores graciosamente me enviam?

Não sei… queria saber, mas não sei.

Até encontrar uma resposta vou continuar a escrever como gosto, esperando contudo, que esta minha atitude não vos provoque um desgosto.


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14 de setembro de 2005

O Beijo

O beijo é uma palavra douta que se pronuncia em silêncio.



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13 de setembro de 2005

Farol da Vida (Capítulo 8)

Nesse momento Carla bate à porta, entra e entrega-lhe as notas da reunião de Manuela com o cliente. Pedro concentrou toda a sua atenção nas notas, rabiscou umas considerações no bloco que sempre o acompanhava às reuniões, e em cuja capa se podia observar uma sublime fotografia de um farol.

Após alguns momentos de reflexão levantou-se, e saindo do gabinete com um passo seguro e confiante dirigiu-se à sala de reuniões. Era uma sala ampla com um pavimento em madeira de dois tons. Ao centro uma mesa comprida, ovalada, em madeira faia fazia conjunto com o soalho. Dispostas à volta da mesa, generosas poltronas revestidas a couro com apliques em madeira em dois tons, proporcionavam um toque harmonioso a todo o conjunto. Para rematar a decoração de sublime bom gosto, duas tapeçarias da Manufactura de Tapeçarias de Portalegre, uma réplica de uma obra de Almada Negreiros e outra de Graça Morais.

Pedro colocou o primeiro pé dentro da sala e imediatamente ouviu a voz de Manuela.

- Agora que o Sr. Arquitecto Pedro Marta nos deu o privilégio da sua presença podemos dar início à reunião.

- Queira desculpar o meu atraso Sra. Arquitecta, mas estive a rever umas notas relativas a este projecto para melhor compreender as razões desta reunião – Defendeu-se Pedro.

Pedro lançou um olhar longo à sala procurando um lugar para se sentar. Nunca tenha percebido porquê (na verdade nunca tinha querido compreender) mas sistematicamente que se falava de uma reunião, os colegas precipitavam-se para a sala de reuniões e deixavam-lhe sempre um de dois lugares: à direita de Manuela ou o lugar na cabeceira da mesa no lado oposto a ela, de algum modo numa posição de desafio. Hoje coubera-lhe o lugar à direita da “chefe”. Possivelmente todos sabiam como acabaria aquela reunião. Não era a primeira vez que os trabalhos não seguiam o projecto delineado por Manuela e iam acabar nas mãos de Pedro. Era isso que todos aguardavam na sala, por isso lhe deram aquele lugar, suspeitavam que ela iria abandonar a sala e assim mais facilmente ele tomaria o lugar da presidência. Logo que Pedro se sentou Manuela começou a falar.

- Tomei a liberdade de convocar esta reunião para vos informar de que, o projecto de Cruzmat tem, a partir deste momento, prioridade máxima. Este é um projecto complexo que até este momento esteve inteiramente e exclusivamente sob a minha, alçada, contudo como todos sabem eu tenho de desempenhar outras funções neste escritório que requerem a minha inteira dedicação, pelo que, depois de ponderar decidi delegar no Sr. Arq. Pedro Marta a finalização do projecto, até porque, a parte mais complexa já está realizada. Confio, como sempre confiei, no vosso total empenhamento e dedicação para que a conclusão deste projecto seja realizada dentro dos prazos estabelecidos. Acredito não ser necessário ressaltar a importância do cumprimento dos compromissos assumidos com os clientes na nossa área de negócio. Assim sendo, e estando certa que o projecto fica nas mãos dos melhores técnicos existentes, vou deixar que seja o Sr. Arquitecto Pedro Marta a conduzir os trabalhos.

Dito isto, Manuela levantou-se e abandonou a sala. A porta fechou-se e Pedro preparava-se para continuar a reunião, quando alguém comentou.

- Esta situação começa a ser demasiado… “dejá vu”!

Pedro ignorou o comentário, mas não conseguiu evitar esboçar um clandestino sorriso de compreensão.

Manuela dirigiu-se para o seu gabinete furiosa com aquela situação. Não gostava de deixar fugir projectos, quanto mais entrega-los de mão beijada, mas dada a situação parecia-lhe que tinha tomado a decisão mais acertada e prudente para a sua imagem pessoal, bem como para a manutenção do estatuto da sua imaculada carreira. Contudo não conseguia deixar de pensar no assunto. Decidiu sair. No gabinete apanhou a carteira que fazia conjunto com os sapatos e com passo elegante, aquele capaz de arrepiar as pedras da calçada, dirigiu-se para a porta do escritório dizendo.

- Maria, volto depois do almoço. Se houver algo extremamente urgente – Sublinhou o extremamente - ligue-me para o telemóvel.

Chamou o elevador que estava estacionado cinco pisos abaixo. Colocou a chave que lhe permitia descer até à garagem e dirigiu-se para o seu carro. Abriu a porta do Mercedes SLK azul. Sentou-se, desceu a capota e arrancou fazendo chiar os pneus no piso cru e cinzento da garagem. Estava tensa, a forma como segurava o volante denunciava a sua agitação. Impaciente, batia com as pontas no volante enquanto aguardava que a porta da garagem abrisse. Por fim conseguiu sentir o ar, ainda levemente fresco, acariciar-lhe o rosto e pensou como desejava que aquela mão doce que a tocava de forma tão suave e intensa fosse a de Pedro. Acelerou junto à marginal, espremendo o acelerador debaixo dos seus luxuosos e elegantes sapatos. Conduziu junto à marginal, seguindo uma rota pré-definida.

Alguns minutos depois parou junto a um luxuoso prédio, na fachada do qual se podia ler “SPA & Fitness”. Procurou na carteira um cartão magnético que introduziu na ranhura. Instantes depois a pesada porta da garagem dava sinais de querer mexer. Conduziu o carro através da garagem labiríntica, estacionando o Mercedes junto a um pilar debaixo de uma lâmpada fluorescente. Fechou a capota, depois a porta e dirigiu-se ao elevador.

Entretanto no escritório, Pedro tinha realizado um balanço da situação, colhido as opiniões e preparava-se para dividir as tarefas. Antecipava que teriam de trabalhar toda a noite, pois apenas assim poderiam ter o projecto pronto para dar entrada no dia seguinte. De manhã tencionava reunir com o cliente, para durante a tarde dar entrada do processo na Câmara. O deadline exigiria um enorme esforço de todos, no entanto, Pedro percebia que algumas das pessoas presente tinham restrições, pelo que, aconselhou os presentes a avisarem as respectivas famílias.

Olhando a sala, Pedro sentiu a angústia nos olhos de Amélia. Amélia tinha um bebé com alguns meses. O dilema de escolher entre a obrigação com a empresa, a obrigação mãe e a vontade de estar com a sua criança dilaceravam-na por dentro. Pedro pressentia a dor de Amélia, até porque, sabia que Manuela nunca compreenderia que num momento tão importante para o escritório alguém pudesse colocar fosse o que fosse acima dos interesses da “Companhia”. Esse medo estava espelhado no silêncio de Amélia. Sem hesitar Pedro dirigiu-se à sala e em particular a Amélia.

- Amélia, necessito que me faça algo especial, pelo que se estiver de acordo vou deixa-la fora deste projecto.

A cabeça de Amélia começou a andar à roda. Se por um lado não percebia porque motivo teria de ficar fora do projecto, nem tão pouco lhe agradava, por outro aquela decisão de Pedro era o analgésico ideal para a sua angústia. Pedro, antes que Amélia tivesse a tentação de dizer algo que a prejudicasse apressou-se a encerrar o assunto e a reunião.

- Meus senhores, vamos ao trabalho. Amélia venha comigo que tenho algo urgente para si.

Com um sorriso maroto, Pedro acrescentou:

- Se estava a pensar que se livrava do trabalho pesado, estava enganada!

A sala esvaziou instantaneamente. Amélia caminhava ao lado de Pedro em direcção ao seu gabinete. Já no interior, Pedro rebuscou entre os seus papéis um projecto de execução que entregou a Amélia com um conjunto preciso de instruções daquilo que pretendia.

Depois de ouvir as indicações de Pedro, Amélia dirigiu-se para a porta. Ao chegar virou-se para Pedro, que estava agora sentado na sua secretária com a cabeça enfiada nos papéis, dizendo:

- Muito obrigado Sr. Arquitecto, em meu nome e em nome da minha família.

Pedro levantou a cabeça, olhou para Amélia e sorriu. Nesse momento pareceu-lhe que um rio estava em formação no canto do olho de Amélia. Pedro limitou-se a continuar a sorrir e por fim disse:

- Dê um beijo à sua pequenina por mim.

Amélia saiu fechando a porta, ao mesmo tempo que o sorriso alegre e terno com que iluminara o dia de Amélia desvanecia.

Naquele momento, Pedro lançou um olhar triste ao telefone e desejou ter uma família a quem telefonar para avisar.

Talvez um dia, talvez…

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5 de setembro de 2005

Farol da Vida (Capítulo 7)

No gabinete da Lindhout, Jaeger & Associates Architects, Pedro desviou o olhar do quadro que dominava a paisagem lateral esquerda do seu gabinete e mentalmente, começou a elaborar uma lista de prioridades. Após organizar virtualmente a lista pegou no telefone e marcou o número de Carla.

- Diga Sr. arquitecto…

- Carla, vá por favor ao gabinete da Dra. Manuela e traga-me os apontamentos da reunião com os clientes deste projecto.

- Vou já. – Respondeu ela.

Sem largar o telefone Pedro realizou imediatamente outra chamada. Do outro lado da linha surgiu uma voz feminina.

- Câmara Municipal, Gabinete de arquitectura e urbanismo, diga por favor. – Disse a voz do outro lado da linha.

- Estela, como está a minha estrela?

- Pedro Marta! – Exclamou ela com admiração. – A que devo tanta honra? Não será certamente para cumprir a promessa de me convidar para jantar, pois não?

Boa – pensou Pedro – tinha-se esquecido que ficara de levar Estela a jantar. E agora que iria dizer-lhe? Pedro permaneceu calado procurando desenfreadamente uma desculpa plausível, contudo foi Estela quem tomou a iniciativa de o desculpar.

- Bem sei que o menino anda muito ocupado. Também compreendo, ainda mais quando se tem uma chefe como essa bruxa velha, recauchutada à pressa em ginásios e clínicas de beleza.

Ufa! – pensou Pedro – ali estava a sua saída.

- Ainda bem que tu compreendes Estela. Sabes que os meus dias aqui no escritório não são fáceis…

- Imagino, imagino – interrompeu Estela – e então as noites ainda devem ser mais difíceis – disse Estela soltando uma risada.

- Mas julgo que não telefonas-te para falarmos das amarguras dos teus dias, nem certamente me quererás contar as aventuras das tuas noites. Destas últimas, e uma vez que insistes em não fazer de mim a protagonista, prefiro mesmo nem saber. Diz-me então o que necessitas.

- Estela, minha estrela (Pedro adorava aquele trocadilho), assim deixas-me sem jeito para te pedir mais um favor, fazes-me sentir como o vilão do conto que se aproveita de inocente donzela.

Estela soltou uma sonora gargalhada em resposta ao comentário de Pedro.

- Ai Pedro, não sei ao que achar mais piada, se a parte da inocente ou da donzela? Diz meu querido, o que eu não faria por ti… Mas é claro que não sou a única pois não?

- É claro que sim! Sabes que mais ninguém olha para mim como tu…

Estela soltou mais uma gargalhada que Pedro aproveitou para iniciar aquele que era o objectivo da sua chamada.

- Estela, hoje cheguei ao escritório e deparei com isto virado de pernas para o ar por causa de um projecto.

- Já sei do que se trata meu querido! A questão é esta. Para a área onde o vosso cliente quer construir o empreendimento a câmara apenas está disposta a licenciar uma obra. Acontece que, soube-se agora que um concorrente do vosso cliente tinha adquirido uma grande parcela de terreno na mesma zona e dizem as bocas às orelhas que ele se prepara para submeter o projecto a aprovação. Como tu bem sabes, por questões políticas e eleitorais o presidente nunca vai autorizar a construção de dois empreendimentos daquela volumetria naquela área. A questão que se coloca é saber qual aprovar.

- Estela, mas nós já tínhamos abordado o presidente e o vereador acerca deste empreendimento muito antes dessa notícia ser conhecida. Pareceu-me também que, tinha ficado um entendimento que a construção daquele empreendimento seria benéfica tanto para a autarquia como para o construtor, se é que me faço entender.

- Fazes sempre, meu querido, como eu te entendo. Tu é que não entendes ou finges que não compreendes esta minha necessidade de carinhos, meu lindo.

Estela não resistia a provocar Pedro, apesar de saber bem que, muito provavelmente, a sua relação nunca evoluiria para além do impasse em que se encontrava naquele momento. Recordava ainda o dia que Pedro entrou pela primeira vez no seu gabinete na Câmara. Impecavelmente vestido com um fato, possivelmente de um costureiro famoso, o cabelo ligeiramente longo, penteado de forma harmoniosamente despenteada e uns brilhantes olhos verdes, cheios de vida, tinham despertado os seus institutos femininos. Depois de um segundo olhar àquela silhueta alta e elegante, sentiu o sangue aflorar à superfície da pele, provocando ligeiros arrepios, sentido a sua pele contrair-se. A custo conseguiu manter a compostura, assegurando a atenção no diálogo que nesse momento mantinha ao telefone enquanto lhe fazia sinal para se sentar e aguardar.

Tentou manter a conversa pelo máximo tempo possível enquanto admirava Pedro pelo canto do olho, notando a sua impaciência que crescia a cada palavra que pronunciava. Após um longo período desligou e quando se preparava para lhe dar atenção o telefone tocou novamente. Rapidamente atende, fazendo mais uma vez sinal a Pedro, que entretanto se tinha levantado, para esperar. Por vontade dela aquela conversa deveria ter durado a manhã toda, pois assim conseguiria manter ali, bem perto de si, aquele deus grego, só lhe faltava mesmo ser loiro. Infelizmente a conversa terminou mais rapidamente do que ela alguma teria desejado. Pedro levantou-se, aproximou-se da sua mesa e começou a falar com ela. As suas palavras soavam a mel. Afinal ele não era simplesmente bonito e elegante, havia algo que não visível, mas que acentuava o seu charme e que transparecia da forma como falava. Estela deleitava-se com a doçura do mel das palavras de Pedro quando, subitamente, o telefone toca novamente. Foi então que aconteceu algo inesperado. Pedro lançou um olhar fulminante ao telefone, mas logo em seguida um brilho surgiu no seu rosto. Lançou a mão e atendeu ele o telefone. Depois de perguntar com quem queriam falar, muito diplomaticamente, sugeriu à pessoa que telefonasse dentro de dez minutos porque Estela tinha saído tratar de um assunto urgente. Então delicadamente pousou o telefone fora do descanso e disse: - Bem acho que agora só vai conseguir ter ouvidos para mim.

Noutras circunstâncias, Estela teria ficado furiosa, mas incrivelmente nem esboçou a menor intenção de reagir e acatou as indicações de Pedro. Ainda hoje lhe custava perceber o que tinha acontecido naquele dia. A brincar disse-lhe numa ocasião que ele a tinha hipnotizado no seu primeiro encontro.

Após aquele encontro, tinham saído algumas vezes e apesar de Estela achar Pedro admirável, sentia ao mesmo tempo que jamais conseguiria prendê-lo da forma como desejava. Foi essa constatação que a levou afastar-se de Pedro, embora desejasse ardentemente que ele lhe ligasse para a convidar para sair, usaria todas as suas forças para lhe dizer que não. Esta era a razão porque não estava aborrecida por ele não lhe ligar, por um lado até preferia deixar a sua relação estagnada naquele ponto.

Estela então continuou:

- Pedro, tu também deves entender que se o teu cliente tem sido generoso para com a Câmara e os seus responsáveis, o seu concorrente também, o que levanta um problema a quem tem de decidir. Então o que foi decido em “off” é que o projecto a ser aprovado será o que primeiro der entrada, para assim evitar melindres das partes. Só não percebo é como é que informação já chegou aí.

- Isso também não sei, nem me interessa. – Respondeu Pedro.

- Isso deve ser coisa da tua chefe, alguma conversa de balneário de ginásio certamente.

-Obrigado pela dica Estela e prometo que um dia destes telefono para te levar comigo a ofuscar o brilho das estrelas do céu num areal perdido à beira-mar.

- Por favor Pedro, não me prometas essas coisas. Sabes que essas promessas apenas servem para me avivar a luz arde dentro de mim a assim corro o risco de explodir como as estrelas que brilham demais…

- Desculpa Estela, mas tu sabes que tenho um carinho muito especial por ti…

- Eu sei Pedro, mas não é igual ao carinho que EU sinto por ti. – Frisou Estela - E tu sendo arquitecto, lidando com forças e resistências, sabes que, quando dois sentimentos, que é como quem diz forças, de intensidade diferente tendem a medir forças há sempre um que perde, e neste caso não há garantias que vença o mais forte, pois isso deixa estar as coisas como estão.

A conversa terminara ali. Pedro pensava como Estela era uma mulher extraordinária. Sentia até um sentimento de culpa por não poder corresponder ao amor que ela lhe dedicava. Pensou que a vida seria bem mais fácil se pudesse escolher a pessoa a quem amar, mas infelizmente não era assim.

Nesse momento e por influência daquele pensamento, lembrou-se de Manuela e como ela, naquele assunto particular, estaria de acordo consigo.

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