20 de julho de 2005

Farol da Vida (Capítulo 1)

Depois de galgar a pequena subida que separava a garagem da imensa avenida, o potente BMW penetrou na confusão que todas as manhãs atingia a larga avenida. Sentado ao volante, Pedro fazia um esforço por se manter atento. A cada cem metros tropeçava num semáforo que se iluminava de um vermelho vivo. Noutras circunstâncias ter-se-ia enfurecido violentamente cada vez que parava, mas hoje não, encarava as pequenas paragens com naturalidade, sentia que cada uma representava um obstáculo para chegar ao emprego e de certa forma, naquela manhã, até lhe parecia positivo.

Ao aproximar-se do final da avenida tentou encostar-se o mais possível à direita, o que conseguiu depois de umas buzinadelas e uns apupos mais exaltados, principalmente de algumas senhoras, às quais respondeu com leve aceno de desculpa e compreensão.

Avistou por fim o quiosque do Manuel. Encostou o carro ao passeio, parcialmente sobre uma área reservada aos autocarros e abriu o vidro. O Manuel apressou-se a sair do quiosque com o jornal na mão. Depois de rápido cumprimento atirou com o jornal pela janela para o banco acompanhado pelas palavras:

- Aqui estão elas, as mais fresquinhas como todas as manhãs.

e respondeu à fatídica pergunta de Pedro:

- Estou bem, obrigado Pedro!

Pedro fechou o vidro sem sequer olhar para o jornal e seguiu serenamente o seu caminho. Era aquela a sua rotina diária e forçosamente todos os dias acabava a recordar a história de Manuel.

Manuel Rojões da Silva Costa tinha trabalhado com ele. Recordava que era um profissional exemplar, sempre pontual e diligente, mas que interessava isso para as grandes companhias? Pensava. Pensou no fatídico dia em que Manuel tinha decidido não comparecer no trabalho porque a sua filha, a sua princesa com ele lhe chamava, tinha desmaiado pela manhã durante o pequeno-almoço e ele decidira acompanha-la juntamente com a mãe ao hospital. Uma decisão que mancharia de negro um dia que prometia um glorioso céu azul esperança.

Nesse dia Manuel deveria apresentar a um cliente um importante projecto. Na sua ausência a responsabilidade da apresentação foi entregue a um colega, mas ao qual faltava a eloquência e força que Manuel sempre imprimia a todos os seus projectos. O cliente gostou do que lhe foi sendo apresentado, mas não gostou das explicações que lhe foram sendo prestadas e após uma intenso interrogatório declarou insatisfeito, pese muito embora o projecto fosse do seu agrado, gostava também se sentir confiança nas pessoas que o iriam acompanhar e recusou a proposta apresentada, acabando por entregar o projecto a uma firma concorrente.

Nesse dia Manuel, sem o saber, angustiado pela dúvida sobre o verdadeiro estado de saúde da sua princesa, tinha assinado a sua sentença. Após uma espera de mais de seis horas, horas de uma tormentosa agonia psicológica, aproximou-se uma médica jovem para conversar com ele e a esposa. Depois de lhes administrar um calmante verbal com uma voz suave e confortante, disse-lhes:

- Possivelmente a sua filha terá de ser submetida a uma pequena intervenção cirúrgica, mas só poderemos ter a certeza depois de efectuarmos mais exames…

- Mas… Dra. é grave, ela… - Disse ele com as lágrimas a aflorar no canto dos olhos profundos, de um negro tão escuro que pareciam um poço sem fundo, tal como a sua aflição naquele momento.

- Ainda não sabemos, mas sabe que com as crianças é tudo diferente, elas têm uma capacidade de recuperação verdadeiramente milagrosa.

A presença de uma criança no meio de uma passadeira obrigou Pedro a uma travagem brusca e ao abandono momentâneo da história de Manuel.

Felizmente a médica, apesar da sua aparente falta de experiência, fruto da sua juventude, tinha acertado no prognóstico e a princesa tinha recuperado plenamente e aquele triste incidente teria sido apagado do livro das suas vidas não fosse a carta da empresa a dispensar os serviços de Manuel. Em particular disseram-lhe que poderiam manter ao serviço um funcionário que perante um compromisso fulcral para a empresa tinha escolhido acompanhar a filha ao hospital, até porque esta estava “mais do que bem acompanhada pela mãe” foram as exactas palavras de Manuela Cordeiro, a chefe.

Fruto da sua idade e publicidade negativa que toda a situação gerou, pelo facto de aquele ser um contrato muito importante e muito badalado na comunicação social, Manuel não conseguiu qualquer colocação noutros escritórios.

Pedro soube por acaso da sua tentativa de ficar com o quiosque e empenhou-se até à alma para conseguir que o alvará lhe fosse atribuído. Manuel nunca soube da nada e ele preferia assim.

Por fim a sua viagem aproximava do final. O portão da garagem do luxuoso prédio de escritórios à sua frente marcava o início de mais um dia de rotina. O portão abriu lentamente e Pedro conduziu o BMW até um local reservado. Na parede uma placa indicada a propriedade: Privado - Arq. Pedro Miguel Marta.

Desligou o motor e sentiu uma angústia apoderar-se dos seus músculos que teimavam em não se mexer e resistiam aos comandos insistentes do seu cérebro que lhe recordava a obrigação de ir trabalhar.

Finalmente depois de uma forte insistência cognitiva, Pedro mecanicamente pegou no jornal, abriu a porta, saiu do carro e dirigiu-se impassível ao elevador, sem nunca desconfiar das surpresas que aquele dia lhe reservaria.

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