25 de julho de 2005

Farol da Vida (Capítulo 2)

Em São José, Joaquim cumpria a sua rotina matinal sem ainda saber que a sua pacata vida estava prestes a experimentar uma mudança terrivelmente radical. Ignorando a tempestade que se formava no horizonte e que muito brevemente se abateria sobre a sua vida, uma vida que já se estendia por bem mais de 70 anos, Joaquim mastigava os pequenos bolinhos de Dª Maria que ia demolhando na caneca de cevada. No seu rosto, desenhado por perfeitas linhas rectas abundavam agora as curvas, algumas bem profundas, rugas que testemunhavam uma vida de dificuldade, alegrias e principalmente muitas tristezas e uma imensurável dose de solidão. Joaquim era um homem forte, em cima dos ombros largos, no limiar do metro e oitenta, ostentava uma farta cabeleira branca que fazia a inveja de muitos dos seus amigos de São José.

São José fora em tempos uma pacata vila essencialmente habitada por gente simples que vivia dos caprichos do mar. Actualmente, fruto da sua localização privilegiada e da baia que se formava entre as falésia que se aventuravam mar dentro, tinha despertado o interesse e a cobiça de promotores imobiliários que a haviam transformado num paraíso turístico. Das pequenas casas humildes dos pescadores pouco mais restava que uma ou duas ruas, tudo o resto tinha sido transformado em condomínios de belíssimas e luxuosas vivendas, salteadas aqui e além por prédios de apartamentos, mas que nunca ultrapassavam os dois andares.

Joaquim recordava a primeira vez que tinha pisado São José. Já não se lembrava há quantos anos tinha sido, lembra-se de ter encontrado na população da pequena aldeia uma família que o acolheu de braços abertos, quando lhe foi entregue pelo ministério o cuidado do Farol de São José.

O Farol de São José era uma construção como tantas outras que era possível encontrar ao longo da vasta costa. Firmemente agarrado ao topo dum dos cabos que vigiava a pequena baia que banhava a aldeia. O Farol fora a salvação de muitos navios, evitando que se aproximassem daquela zona da costa, cravejada de rochedos que na maré baixa lembravam enormes baleias que emergiam do mar para respirar e tal como elas, pela força das ondas, de vez em quando sopravam jactos de água que se elevavam em direcção ao céu.

Joaquim era desde esse tempo o Faroleiro responsável pela guarda e manutenção do farol. Habitou durante muitos anos a pequena casa quadrada, que timidamente se aninhava ao lado do gigante.

Ali tinha casado, mostrara a luz a duas vidas e também ali tinha visto a escuridão da morte levar-lhe a sua luz, aquela que durante tantos anos lhe tinha iluminado o caminho da vida. Sentia ainda com alguma mágoa o dia em que teve de abandonar a casa do farol. A casa degradara-se. O bafo duro e implacável do oceano tinha calmamente transformado o seu castelo, o seu reino, num local frio e hostil. Joaquim tentara por várias vezes sensibilizar os responsáveis para a necessidade de proceder a obras de conservação, mas a resposta que ansiava perdeu-se sempre na volta do correio.

Um verão a visita da filha, a sua Xaninha, precipitou a mudança. Revoltada por ver as condições da velha habitação onde passara os anos mais felizes da sua vida, tentou que o ministério procedesse às obras necessárias, mas confrontada com frieza dos orçamentos, decidiu adquirir uma casa no centro de aldeia e mudar para lá seu pai. Tinha sido um momento particularmente doloroso. Com as lágrimas nos olhos os dois tinham fechado a porta da casa, afastaram-se uns metros e em silêncio permaneceram longos minutos deixando semeada naquela areia que cobria a dura rocha que enfrentava a forma do mar as emoções que corriam ao longo das suas faces.

Agora, já sozinho, Joaquim cumpria todos os dias o ritual de subir ao topo da escarpa, passava ao lado da pequena casa, procurando não a olhar de frente e abrir a porta do farol. O Farol estava agora automatizado, pelo que Joaquim fazia apenas inspecções de rotina. Na verdade tal nem seria necessário, pois uma panóplia que equipamentos electrónicos enviariam um sinal de alerta para uma central caso ocorresse algum problema no Farol, mas isso pouco interessava a Joaquim, o apelo daquele Farol, que fora e era o Farol da sua vida era mais forte, pois era ali que se sentia vivo, a visita diária aquele Farol era o pão e vinho que lhe alimentava a alma.

Naquela manhã Joaquim preparava-se para cumprir a sua missão. Lentamente percorria as ruas da, ainda, meio adormecida aldeia. De frente para o oceano o sol espreguiçava longos e dourados braços. Na rua apenas algumas pessoas, habitantes da terra que Joaquim bem conhecia.

Entre comprimentos e votos de bons dias, seguia seguro em direcção ao Farol de São José, sem calcular o que o esperaria nesse dia, em casa, ao voltar da visita ao seu companheiro de vida.

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