26 de setembro de 2005

O Príncipe e o Sapo

Atravessou com calma a porta tipo remoinho que dava acesso ao terminal A do aeroporto. Ainda tinha algum tempo antes da partida do seu voo. O terminal estava repleto de pessoas. Lá fora, uma chuva miudinha molhada os mais incautos, que tendo despertado com sol radioso tinham desprezado a sempre útil companhia do chapéu-de-chuva. Naquela cidade o tempo era assim, caprichoso. A proximidade do mar fazia com que o céu mudasse rapidamente de tom e várias vezes ao dia.

Espraiou o olhar pelo terminal procurando um lugar para sentar e descansar. A noite mal dormida e o trolley que o perseguia desde muito cedo começavam a fazer-se sentir. Junto às escadas de acesso ao controlo policial vislumbrou várias filas de cadeiras metálicas com forro negro dispostas paralelamente umas às outras desafiando-se aos pares.

À distância conseguiu detectar apenas meia dúzia de lugares livres. Mentalmente foi recorrendo as diversas possibilidades, procurando a mais agradável. Rejeitou a primeira, pois na cadeira ao lado dormia um jovem de perna esticada a ocupar parcialmente o lugar que pretendia utilizar. Rejeitou a segunda, a terceira e as seguintes até que, numa fila mais afastada detectou duas cadeiras livres. A esquerda estava uma jovem de cabelo louro, jeans e uma camisola azul. Nos pés uns simples ténis brancos de uma marca conhecida. Sobre as pernas um computador portátil aberto. À direita um casal de jovens apaixonados trocava confidência e afagos.

Sim aquele parecia ser um bom local.

Aproximou-se e escolheu deliberadamente sentar-se na cadeira mais à esquerda, ordenando ao trolley que se sentasse e aguardasse. Olhou para a jovem à sua esquerda, que instintivamente lhe retribuiu o olhar e o sorriso com que ele a brindou. Baixou os olhos para o computador, onde ela, afincadamente escrevia. Estavam numa zona wireless e ela parecia ocupar a sua espera num chat. Esteve durante minutos com os olhos presos no ecrã do computador até que ela lhe disse:

- Desculpe, mas não lhe parece falta de educação estar a ler as conversas dos outros? Não se importa de parar de olhar para o meu computador!

- Perdoe-me, mas na realidade nem estava a ler. Estou tão cansado que o meu pensamento estava a voar sobre um praia de areia douradas, resguardada por dunas desertas, vigiada por um Farol secular…

- Na minha profissão já ouvi más desculpas, mas essa deve ser das piores. – Disse ela sorrindo.

- Acredito que sim, mas nenhuma foi certamente tão sincera como esta. Se desejar posso tentar encontrar outro lugar para me sentar. – Disse ele

- Não se incomode, pois já estou quase de partida.

- Pedro Sobral. – Disse ele estendendo-lhe a mão. –

Ela acedeu ao cumprimento.

- Sara Castelo.

- Agora que já temos mais intimidade, deixe que lhe confesse que apesar de efectivamente não estar a ler o que escrevia no computador, não pude deixar de reparar que estava a utilizar um chat e perguntei-me o que levaria uma mulher jovem e bela, como você, a estar num aeroporto a conversar num chat.

- Não espera sinceramente que lhe responda a isso, pois não?

- Sinceramente? Porque não?

Ela soltou uma gargalhada sonora que levou algum tempo a extinguir-se. Já parcialmente recuperada do ataque de riso respondeu.

- Ora, simplesmente porque não o conheço e não tem nada a ver com isso.

- Pois olhe que eu penso exactamente o contrário. Um estranho, conhecido num aeroporto, pode ser a pessoa ideal para nos abrirmos e contar aquilo que não temos coragem de contar àqueles com quem diariamente convivemos. Já pensou nisso?

- Não, nunca tinha pensado e também não me parece que vá pensar agora. Já agora, diga-me…

- Sim… - expectante pela questão?

- Por acaso não é um candidato a padre que em viagem entre seminários se entretém a tentar confessar, ou será melhor dizer, engatar jovens em terminais de aeroporto? - Questionou ela num tom provocador e irónico.

- Claro que não! Disse ele num tom peremptório, fazendo uma expressão de ofendido - Mas… a Sara tem necessidade de se confessar?

- Deus me livre! Não “Sr. padre”! Fujo do pecado como o diabo da cruz! – Risos.

- Esclareça-me apenas uma coisa. Com quem conversava aí nesse computador?

- Sinceramente? Com ninguém.

- Então?

- Tenho um amigo com quem costumo conversar e esperava encontra-lo cá a esta hora.

- Era importante falar com ele? – Questionou ele.

- Importante, importante... sim e que não. Não tinha um assunto importante para falar com ele, o que era mesmo importante era simplesmente falar.

- Sinto que esse amigo é especial, talvez um namorado?

Risos

- Até podia ser, se nos conhecêssemos pessoalmente!

- Está atentar-me dizer que não o conhece, mas que mesmo assim sente falta de falar com ele?

- Creio que podemos dizer que sim. Falo com ele quase todos os dias e quando não consigo falar fico num estado de ansiedade que não consigo explicar. Mas que estou eu para aqui a contar-lhe? Afinal parece que sempre está a tentar confessar-me.

- E aparentemente com sucesso. - Disse Pedro. - Não ligue ao que acabei de dizer. Não sei explicar, mas desde que a vi aí sentada com o computador aberto, creio que pressenti a sua ansiedade. Como pode ver não me enganei. Acho que comunicamos bem, os dois.

- Até pode ser, mas é algo que não estou preparada para admitir.

- E sobre o seu amigo, quer falar-me mais sobre ele?

Sara fitou Pedro nos olhos e ficou pensativa. Por fim disse:

- E porque não! Afinal você é simplesmente um estranho que não voltarei a ver!

- Já se conhecem há muito tempo?

- Uns meses. Tudo começou com uma brincadeira de amigas. Entrámos num canal e começámos a meter conversa com alguns utilizadores. A sua não era a mais brilhante ou hilariante, mas algo me levou no dia seguinte a voltar ao canal para falar como ele.

- E ele estava lá?

- Sim, esse foi o princípio do meu problema. Estava, e disse que estava à minha espera. Depois conversa leva a conversa, e aqui estou eu, meses depois agarrada a um computador, num terminal de aeroporto, na esperança de falar com ele antes de partir.

- Mas tinham combinado algo?

- Não, nunca discutimos assuntos da nossa vida pessoal, não sei o que faz, como vive, com quem vive, onde trabalha, nada. Concordámos que seria melhor assim. Seria apenas uma conversa anónima na rede.

- Por isso ele tanto pode aparecer, como não, certo?

- Sim, mas quando não aparece fico apreensiva, não sei o que pensar. Penso que talvez esteja farto das nossas conversas.

- Mas algo deve saber dele, algo pessoal, algo que lhe permita identificá-lo se o vir?

- Não, nada!

- Desculpe que lhe diga Sara, mas essa relação parece-me algo estranha e familiar ao mesmo tempo. Deve ser um fruto dos novos tempos e das novas tecnologias. O mundo que nos entra por fio e nós cada vez mais isolados. Nunca pensaram em marcar um encontro?

- Já pensei nisso, mas nunca tive a coragem para, sequer, o sugerir. Imagine que depois o príncipe afinal me saía um sapo. Não sei como reagiria…

- Pois há sempre esse perigo, principalmente quando a relação está estrutura sobre um fio condutor que vocês percorrem como equilibristas sobre uma pista de circo sem rede de segurança.

- Olhe Pedro, gostei dessa imagem! Creio que é isso mesmo somos equilibristas na corda e é precisamente o medo de cair que nos mantém agarrados à corda.

- E a Sara também nunca lhe revelou nada pessoal?

- Não que me lembre. Espere… lembro que uma vez lhe disse em brincadeira que tinha um pequeno sinal numa parte do meu corpo, mas que ele nunca veria.

- E disse-lhe onde era?

- Depois de muita conversa, do tipo desta sua, de confessor, ele conseguiu arrancar-me a informação.

Naquele instante pelo sistema áudio do aeroporto uma voz feminina anuncia a última chamada para o check-in do voo 855.

- Este é o meu voo - disse Sara, levantando-se.

Pedro, seguindo-lhe o movimento, disse sorrindo:

- Coincidência, também é o meu voo.

Sara, abrindo muito os olhos, e ainda incrédula murmurou:

- Não posso acreditar!

Então Pedro olhando com ternura para Sara disse-lhe,

- Sara, gostaria de pedir um lugar a seu lado no check-in, mais ainda se a Sara tiver um pequeno sinal em forma de L na parte exterior do seu peito esquerdo.

Sara abriu muito os olhos para os fechar em seguida. Pedro pressentindo ela se desequilibrava, lançou os braços e susteve-a pela cintura. Sara esteve apenas uns instantes com os olhos fechados. Quando os abriu viu-se suspensa nos braços de Pedro que muito delicadamente lhe perguntou:

- Sei que não sou um príncipe, mas espero que não me aches um sapo.

Sara, tentou recobrar a posição vertical indo procurar os lábios de Pedro que beijou apaixonadamente.

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